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Os rastros econômicos da pandemia

Wagner Bragança


A pandemia fez desabar a economia mundial. Nenhum país escapou. Um dos maiores centros financeiros globais, o produto interno bruto (PIB) americano desabou quase 33% no segundo trimestre do ano, um dos piores resultados de sua História. Maior economia europeia, a Alemanha também fechou o período de abril a junho no negativo de 10,1% em relação ao primeiro trimestre e encerrou os seis meses iniciais de 2020 com números jamais registrados nos últimos 50 anos. O PIB alemão encolheu em 34,7%. O México marcou uma retração de 53,2%. Espanha, França e Itália também anotaram tombos históricos nos resultados econômicos.

O Brasil, segundo maior país do mundo em número de casos de Covid-19, não tem o que comemorar. Enquanto as taxas de isolamento social desabam para menos de 40% em todos os Estados, as atividades econômicas reabrem e as escolas se preparam para retomar as aulas, o Ministério da Economia estima que o déficit primário do setor público vai fechar o ano em torno de R$ 823 bilhões. Ou seja, vamos gastar mais R$ 823 bilhões do que vamos arrecadar. Fechamos o ano com um rombo enorme.

A pandemia atingiu de tal forma a economia que a indústria brasileira ocupa hoje a 30ª posição no ranking de 43 países montado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), órgão que reúne representantes das maiores empresas nacionais. A produção do setor recuou 10,7% de janeiro a maio, bem menor que a média da indústria mundial, de -7,4% e pior que a dos países emergentes (-5,5%).

Isso se traduz em postos de trabalho fechados, em menos consumo, em renda menor. E as perspectivas para o futuro não são boas. Com a proximidade das eleições municipais marcadas para novembro e a campanha presidencial de 2022 no horizonte, o Ministério da Economia vem sendo pressionado por prefeitos, governadores e até por integrantes do próprio governo a gastar mais.

O Planalto quer ampliar o Bolsa Família, incluir no programa muitos dos que foram atendidos pela ajuda emergencial de R$ 600 e não constavam de nenhum cadastro oficial. O Renda Brasil, como será rebatizado o programa, vai exigir mais recursos e eles vão ter de sair de algum lugar. Atender mais brasileiros necessitados é um mérito, especialmente diante do quadro de desemprego que se desenha para o pós-pandemia. Mas o governo vai ter de decidir, com muito critério e rigor, de onde vai tirar dinheiro para distribuir porque mais gastos geram déficit maior para o setor público e PIB menor para o Brasil.

E isso é uma verdade irrefutável. Depois de seis meses seguidos de crescimento, a dívida pública brasileira (governo federal, estaduais, municipais e INSS) atingiu o patamar de 85,5% do PIB em junho. Fechou em R$ 6,15 trilhões, a maior da série do Banco Central iniciada em dezembro de 2006. Nosso endividamento só faz aumentar desde o início da pandemia no país, em fevereiro.

Essa equação entre ter de investir para ajudar a recuperar a economia e conter o endividamento é tão complicada que atrapalha até a nomeação de um novo presidente para o Banco do Brasil. Rubem Novaes desistiu do cargo justamente porque se recusou a fazer concessões para atender às pressões por medidas que gerariam um maior déficit público. Seu sucessor terá de atender a algumas delas e os principais nomes do mercado rejeitam a ideia.

Em meio à celeuma, o Banco Central anuncia o lançamento da nota de R$ 200, com a imagem do lobo-guará. Alega ser necessária para atender uma demanda imprevista por dinheiro vivo e economizar na fabricação de novas cédulas. Pode até ser diante do fato de que muitos dos atendidos pelo auxílio emergencial costumam comprar e pagar em papel-moeda, mas a medida vai na contramão do que se vê no mundo. Países europeus e mesmo emergentes vêm reduzindo as cédulas em circulação e diminuindo o número das de maior valor especialmente para dificultar operações ilegais – tráfico de drogas, contrabando e corrupção – que geralmente são feitas em dinheiro vivo.

Além disso, mais da metade das empresas brasileiras tiveram dificuldades para realizar pagamentos na segunda quinzena de junho. Outra metade foi obrigada a adiar o pagamento de impostos para fechar as contas segundo dados do IBGE. O setor de serviços foi o mais atingido, especialmente nas regiões Sul e Centro-Oeste, hoje as mais atingidas pela pandemia. Os dados de julho devem ser ainda piores.

O mundo está em uma encruzilhada. Com os casos de Covid-19 voltando a dar sinais de recrudescimento em países asiáticos e europeus, em alta nos Estados Unidos, México e no Brasil não são apenas as corridas de Fórmula 1 que serão suspensas. A economia também está em suspense.

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