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O holocausto de ontem e de hoje

Fábio Nogueira

Parece história do passado, mas não é. O antissemitismo continua a existir no mundo, parte de uma onda conservadora que atinge diversos países, faz crescer o preconceito racial, de gênero e religioso e cria um círculo vicioso e condenável que todos temos obrigação de condenar e combater.

Na segunda feira passada, 27 de janeiro, foi o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, uma página triste e insana da História mundial. A data marca o aniversário de 75 anos da liberação do campo de concentração nazista de Auschwitz por soldados soviéticos. Para quem ainda não conhece bem, uma exposição fotográfica no Centro Cultural da Justiça Federal do Rio de Janeiro – “Alguns eram amigos” – relembra o que foi feito (ou não) para auxiliar as vítimas do nazismo e do antissemitismo durante a Segunda Guerra Mundial (estará aberta até 20 de fevereiro).

Em Auschwitz, o maior centro de extermínio do regime de Adolf Hitler, 17 milhões de pessoas — 6 milhões de judeus — foram mortas. “Não tínhamos a menor ideia da existência daquele campo. Nossos superiores não disseram coisa alguma sobre ele. Entramos ao amanhecer de 27 de janeiro. Havia um cheiro tão forte que era impossível aturar por mais de cinco minutos. Vimos algumas pessoas de pé em roupas listradas – eles não pareciam humanos. Eram pele e osso, somente esqueletos”, contou Anatoly Shapiro, primeiro oficial soviético a abrir os portões e entrar no complexo de Auschwitz.

Restavam 7.500 prisioneiros, libertados pela 322ª Divisão de Rifles do 60º Exército de Frente Ucraniana do Exército Vermelho. Entre as lembranças do genocídio, os russos contaram 348.820 ternos e 836.255 vestidos, milhares de óculos, cabelos humanos e calçados, muitos de crianças.

À herança de destruição do nazismo de Hitler soma-se à do fascismo de Benito Mussolini que pregava o ”tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”, o totalitarismo no poder ou, como define o dicionário Oxford “um sistema de governo caracterizado por rígida ditadura de partido único; com supressão forçada da oposição; retenção da propriedade privada dos meios de produção e controle governamental centralizado; nacionalismo beligerante e racismo; e glorificação da guerra”. Hitler e Mussolini se uniram contra o mundo, mataram, assassinaram, destruíram. Deixaram um passado de ódio para lembrar.

Regimes totalitários, centralizadores, são assim. Por isso são condenáveis ontem, hoje e sempre. Não por acaso a sociedade brasileira reagiu com horror ao discurso do então secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, ao anunciar o Prêmio Nacional das Artes. Ele não apenas copiou citação do ministro de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, como ainda usou como fundo musical a ópera "Lohengrin", de Richard Wagner, compositor alemão celebrado pelo regime de Hitler.

Alvim foi exonerado pelo presidente da República do cargo, agora ocupado pela atriz Regina Duarte, mas o episódio revela o quanto a ideologia nazista ainda persiste e atrai seguidores mundo afora. Muitos de seus métodos – a intimidação, a violências, os assassinatos, as perseguições – são reproduzidas em escala menor hoje no Rio de Janeiro nas comunidades controladas pelas milícias e pelo tráfico.

Crimes e atitudes antissemitas estão em ascensão no nosso planeta. Dados recentes da Liga Antidifamação dos Estados Unidos comprovam que os ataques contra judeus e instituições judaicas dobrou entre 2015 e 2018 naquele país. No Brasil, o último levantamento da mesma organização, mostra que 25% dos brasileiros mantêm opiniões preconceituosas contra os judeus —eram 16% em 2014. Pior ainda, pesquisa divulgada semana passada pelo Pew Research Center demonstra que apenas 45% dos 11 mil americanos entrevistados sabiam que 6 milhões de judeus foram exterminados pelo regime de Adolf Hitler. No Brasil, eram 22% dos consultados pela Liga Antidifamação que nunca ouviram falar em holocausto.

Em meio ao crescimento de crimes antissemitas e raciais em todo o mundo, relembrar o genocídio praticado pelos nazistas é uma obrigação. É preciso sempre bradar contra essa "ressurgência bárbara" de crimes de ódio, como define o Papa Francisco. A ascensão de regimes de extrema direita – o de Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, é o pior exemplo – é uma realidade hoje. Se somados aos regimes ditatoriais, apenas reafirmam o alerta global contra as práticas violentas que costumam encenar e o Dia Internacional em Memória do Holocausto faz relembrar.

Como bem citou Carlos Reiss, coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, “governos de extrema direita legitimam o discurso de ódio e de negação do Holocausto”. Foi para que o que aconteceu em Auschwitz e outros campos de concentração nazistas jamais seja esquecido que a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a resolução 60/7 em 1º de novembro de 2005, durante a 42º sessão plenária, instituindo o 27 de janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

A resolução enfatiza o dever dos Estados-membros de ensinar às futuras gerações sobre os horrores do genocídio nazista e condena manifestações de intolerância ou violência baseadas em origem étnica ou crença. Essa página não pode ser apagada da memória mundial. Para nunca se repetir!

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